O Panorama
atual do Rock & O Tributo a Raul Seixas em Ceará-Mirim
Pedro Carlos da Rocha Neto
Cirurgião-Dentista, Mestre e Especialista em
Patologia Oral e Maxilofacial
A originalidade do Rock é observada em todos os
seus estilos – nesta série de artigos foram citados os estilos originais de
cada década, que deram origem aos diversos subgêneros de rock - que se
desenvolveram desde o início do gênero musical, no final dos anos 1940, até a
década de 1980. Todos os estilos dessas décadas são crivados de teor crítico
sociopolítico e cultural, com maior ou menor efervescência, e desenvolveram
importante papel na formação de opinião pública relacionada a momentos da
História recente. Porém, o Rock vem sofrendo um enfraquecimento efetivo da sua
característica sociopolítica e socioantropológica desde a década de 1990,
quando ainda apresentava algum bom conteúdo social, político e cultural. Sendo
assim, de lá para cá o Rock vem sendo gradativamente substituído por algo que
tem a pretensão de se intitular Rock: um rock vinagre. E, atualmente, parece
que só um milagre é capaz de fazer o vinagre se transformar em vinho. Portanto,
parece que o Rock está virando artigo de museu da História.
No
Brasil e no mundo o rock puro ainda pulsa através das atitudes, do pensamento e
até do estereótipo inconvencional de muitas pessoas, pois, pode-se dizer, a
ousadia de ser diferente do comum tem muita relação com o raciocínio crítico
que o Rock germinou na sociedade. Isso porque o Rock desde o início impulsionou
um modo diferente de lidar com a solidez das convenções e tradições. Sendo
assim, o estereótipo dos amantes do Rock normalmente se destaca na sociedade,
seja pela barba, cabelo, brincos, tatuagens, roupas, ou pelo comportamento,
pois é uma maneira de afirmar, com civilidade, sua transgressão à
retilinearidade dos padrões sócio-político-culturais, e assim dizer à sociedade
que eles pensam com a própria cabeça.
Em
Ceará-Mirim, no dia do Tributo a Raul Seixas, a cidade tem uma amostra da
essência do Rock e percebe a civilidade daquelas pessoas nada convencionais.
Naquele dia de agosto, há mais de 30 anos, Ceará-Mirim é invadida por várias
tribos de roqueiros vindos de várias cidades do Rio Grande do Norte e de outros
Estados, de maneira que a cor preta das roupas se torna predominante nas ruas
da cidade. Os bandos de motoqueiros que entram na cidade são um show à parte.
A cidade fica observando as
atitudes, as roupas, os cabelos, as barbas, as tatuagens, os brincos/piercings
e as preferências por locais arborizados, como as praças da Igreja Matriz e da
Câmara Municipal, ou calçadas, onde aquelas pessoas gostam de se sentar para
conversar, beber e fumar. Sem falar na viagem de trem, que vem de Natal lotado
de rockeiros curtindo o início da aventura daquele dia - uma referência à
música “O Trem das Sete” - e na prévia do evento que é feita no Mercado Público
de Ceará-Mirim, onde eles saboreiam as iguarias da cidade, conversam, bebem e
fumam, curtindo a apresentação de bandas naquele lugar que tem muito a ver com
o estilo Rock e Baião de Raul Seixas.
É um
dia de aventura e êxtase para os amantes do Rock, uma espécie de Festival de Woodstock no Brasil, onde é possível experimentar o escapismo de um
dia de “Sociedade Alternativa”, em que a única regra é ser um “Maluco Beleza”.
Porém, vale ressaltar que, além da diversão, o Tributo a Raul Seixas movimenta
a economia da cidade de Ceará-Mirim, de maneira que as hospedarias e os bares
lotam, as lojas de roupas vendem todo o estoque de peças pretas e o Mercado
Público “escurece” de tantos roqueiros que o superlotam no dia do evento. Mas,
o que mais chama a atenção da cidade é a relativa placidez daquele povo nada
convencional, que sempre surpreende pela educação e civilidade.
A ideia de fazer um tributo a Raul Seixas
surgiu no ano seguinte a morte de Raul. Ocorreu num dia de sábado, na casa do
pai de Erivan Lima, onde estavam Erivan, Eliel Silva e Giancarlo Vieira bebendo
e batendo um papo. Naquela ocasião, Eliel sugeriu a Erivan que ele fizesse um
tributo a Raul Seixas e apresentasse sua coleção de peças sobre Raul, que ele
vinha juntando desde 1981. Erinho de imediato não achou que daria certo, por
receio de Ceará-Mirim não acatar a ideia. Porém, em 18 de agosto de 1990, Erivan
Lima, Eliel Silva, Giancarlo Vieira e João Palhano fizeram o 1° Tributo a Raul
Seixas, intitulado de “Maluquez Revisitada”, no Centro Esportivo e Cultural. E,
apesar do receio de Erinho, o evento surpreendeu com cerca de 300 pessoas.
Os
primeiros Tributos, então, eram feitos no Centro Esportivo e Cultural e abertos
ao público, com o equipamento de som alugado a Luiz, de Forró do Povo. Os
eventos eram feitos com apenas um grupo de músicos amigos que animavam a galera
tocando exclusivamente músicas de Raul. Tudo era bem simples e mais parecido
com uma brincadeira entre amigos. Vale lembrar que entre os músicos e
vocalistas dos primeiros Tributos a Raul Seixas em Ceará-Mirim, estão Eliel
Silva, Ionaldo de Oliveira, Giancarlo Vieira, Mércio Lemos, Ruy Lima, Luciano
Oxó, Vitoriano Roberto, Marcos Soares e os filhos do escultor Etevaldo, Manoel
e Naldo. Por sua vez, Erinho, devido a sua timidez, não cantou nos 6 primeiros
Tributos, passando a fazê-lo somente a partir do sétimo. Desde então, ele
passou a ser popularmente conhecido como Erivan Seixas.
Sendo
assim, desde 1990, todos os anos, em agosto, mês da morte de Raul Seixas, acontecia
no Centro Esportivo e Cultural de Ceará-Mirim o festival Maluquez Revisitada,
mais conhecido como Tributo a Raul Seixas, onde Erivan Lima faz a exposição da
sua coleção de itens sobre Raul Seixas, com a finalidade de celebrar e divulgar
a obra do músico baiano. Porém, o evento foi aumentando a cada ano, com
participação de várias bandas de rock e um público cada vez maior, de maneira
que, a partir de 2012, passou a ser realizado no largo da Estação Cultural da
cidade.
O
evento, que é denominado oficialmente de Maluquez Revisitada, ganhou o
reconhecimento da Câmara Municipal de Ceará-Mirim em 2012, através do Decreto
Lei n° 013/2012, que determina o acontecimento do Tributo sempre no terceiro
sábado do mês de agosto.
Em
agosto de 2022, a Câmara Municipal de Ceará-Mirim aprovou o Projeto de Lei n°
32/2022 que declara o Tributo a Raul Seixas como Patrimônio Cultural
Material/Imaterial do Município de Ceará-Mirim, considerando que o evento é de
grande relevância para o Município e para o Estado do Rio Grande do Norte.
Portanto,
Ceará-Mirim continuará gritando aos quatro cantos do Rio Grande do Norte e do
Brasil:
- Toca Raul!
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artigos, acesse os links abaixo:
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http://gotoseco.blogspot.com/2020/11/rock-e-atitude-contribuicao.html?m=1
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